30 de Janeiro de 2012

Produtores para o século XXI - Parte II


Continuação de Produtores para o século XXI - Parte I

Dirão alguns: “Mas a minha empresa já exporta. Já somos globais”. Tretas! A globalização não é ter o vinho em muitos países, mas sim comunicar o nosso vinho em muitos países. Percebem a diferença? É estar em todo o lado. Procurar a omnipresença divina. Adicionar constantemente motivos de compra.
Agregação e cooperação parecem-me fundamentais para criar estruturas competitivas e com forte capacidade negocial. Com peso. Esqueçam para aqui o conceito de cooperativa. A individualidade continua mas com regras diferentes.
Agregação é a capacidade dos produtores para participarem em espaços cuja finalidade seja o encontro, discussão e partilha de experiências para o claro beneficio de todos. A cooperação passa por partilhar soluções e recursos.
Bom, hei-de explicar mais aprofundadamente estas questões até porque estou a desenvolver um plano de negócio que vai de encontro a estas necessidades, mas fiquem com o exemplo que se segue como forma de ilustração.
Presentemente os produtores estão a braços com dois problemas. O peso financeiro das estruturas e a estanquicidade do mercado.
Ao peso da estrutura, associo uma má relação preço/qualidade dos recursos, que se traduz maioritariamente na incapacidade que a empresa tem para contratar os melhores técnicos em todas as áreas, embora tenha custos com pessoal que ultrapassam as suas possibilidades financeiras actuais. Então como é que a agregação e a cooperação podem ajudar? Simples. Se eu tenho o melhor adegueiro da região, é de esperar que este tenha um salário condicente com as suas capacidades. Contudo, não consigo rentabiliza-lo a 100% pois a adega não é assim tão grande. Por outro lado, tenho uma avença com um enólogo que não é dos melhores, mas que tem um preço que me permite ir cumprindo com as obrigações. Mas o meu vizinho, está numa situação contrária. Tem um enólogo bom que, por ser bom é também bem pago só que se vê obrigado a fazer o trabalho de adegueiro pois o patrão não tem dinheiro para contratar mais ninguém. Então? Não será melhor acertar agulhas e partilhar os melhores recursos que temos? Eu cedo o meu adegueiro e o meu vizinho cede-me o enólogo. Feitas as contas poupamos ambos dinheiro ao mesmo tempo que damos um impulso gigantesco na qualidade do produto.
Quando transponho esta ideia para as restantes fontes de custo: equipamentos, administrativas, comunicação de marca, presença em eventos nacionais e internacionais, fico louco com a rentabilização de recursos, sejam financeiros, sejam humanos que se conseguem.
Ai mas e tal, os portugueses não conseguem ultrapassar a barreira da desconfiança e, porque não dize-lo, do EGOISMO.
Conseguem sim. Há já alguns bons exemplos disso (aqui, e aqui, ...).

Para mais, vão ter de o fazer. Não têm escolha.

27 de Janeiro de 2012

Produtores para o século XXI - Parte I

Estou em choque. O motivo vem do livro que ando a ler, Produzir e Beber - A questão do vinho no estado novo de Dulce Freire e prende-se com o facto de passadas 3 gerações, a rapaziada que está nos destinos das produções vitivinícolas continuar basicamente com o mesmo tipo de mentalidade.

A palavra de ordem continua a ser: “Eu, eu, meu, meu, para mim, para mim”. Olha-se de lado para o vizinho como se não se soubesse já que o mal dele é como uma praga de míldio, pegam-se facilmente e propagam-se pelo ar.
Um parênteses aqui, pois lembrei-me de algo que li do Miguel Esteves Cardoso. Vou procurar. Esperem um bocadinho….
Ok! Achei. É retirada de uma pequena crónica intitulada Mediocridade que encontrei compilada no livro A Causa das Coisas (foi publicada pela primeira vez no Expresso nos anos 80 e vejam como se mantém actual!). Passo a citar:
“Será má vontade? [a mediocridade] Não me parece. O Português mediocriza-se por pura paranóia. O terror máximo dele é ser “otário”. Nada nos aflige mais do que a ideia de estarmos dalguma forma a trabalhar para os outros. A lentidão ou ineficácia dos nossos colegas não nos parece nem uma coisa nem outra. Para nós, trata-se apenas de uma “artimanha” para se “aproveitarem” do nosso trabalho. Cada vez que fazemos um pequeno esforço, o outro tira as medidas ao acréscimo de produtividade e extrai gulosamente esse esforço da sua própria porção.”
Delicioso.
Penso que a falta de união vai na mesma justificação da mediocridade (ou será que vai por causa dela?). Essa postura tem de acabar e vou mais longe, no século XXI serão alguns dos valores que fizeram vingar a internet a prevalecer nos negócios. E quais são?
 Agregação, cooperação e globalização.

Continua ...

25 de Janeiro de 2012

Enoblogs, w-blogs, Wine Blogs,..., ou lá o que é!

O Quê? Existem blogs sobre o vinho em Portugal?

Pois é, mais uma vez aqui vou eu numa cavalgada suicida. Mais uma tirada reflectiva à volta dessa neblina desfocada que é a w-blogosfera portuguesa (penso que inventei uma palavra nova). É mesmo certo. Vou falar da forma como a malta se arrasta por aqui, por isso podem passar para a leitura seguinte. Quem nunca gostou não irá certamente rir desta vez.
Tudo isto a propósito de no outro dia (nunca interessa muito bem quando) estar eu a arrumar algumas coisas aqui “por casa” quando vi no blogroll que o Mesa Marcada (MM) tinha um post intitulado “Blogs do ano 2011”. Vou ser franco, palpitou-me o coração. Finalmente alguém tinha decidido que os blogs também têm qualidade e que merecem ser premiados. E para quê esconder, penso que é inato ao ser humano, quando vemos um titulo destes acalentamos sempre a esperança de ver o nosso link no meio dos nomeados. Mesmo quando em consciência sabemos que os nossos escritos são lidos pela nossa mãe e mais um ou dois amigos que se comprometeram num dia de vapores alcoólicos.
O post no MM afinal era a noticia de que aquele espaço tinha sido nomeado e que a listagem se encontrava num outro link. Não desisti, cliquei. Uma lista enorme foi o que se me apresentou aos olhos. Ah… atão?... ahhh! Mas… olha!!! Bolas! ...Grande merda, nada sobre vinhos! Nem um, é como se em PT não existisse um único blog sobre o assunto.
Depois percebi que aquilo afinal era um concurso e que havia inscrições… mas… ninguém no vinho soube nada disso, ou soube?
Será que não temos suficiente visibilidade? Será que andamos tão cegos com o número de visitas que ainda não nos apercebemos que fabricamos conteúdos estéreis e sem nenhum interesse? Será que temos má fama? Não é que andemos por aí a pedinchar e/ou a roubar garrafas por onde aparecemos…. Ou andamos?
Afinal, publicamos para quem? Para quê? Com que impacto?

Oi! Voçê ai, que caiu aqui sem saber como, não tem um blog mas achou piada e leu até aqui, quer fazer o favor de me dar a sua opinião?
Obrigado!

23 de Janeiro de 2012

Entender de Vinho


Tenho evitado escrever sobre este livro de João Afonso por duas razões. A primeira é que nutro algumas emoções contraditórias sobre esta obra. A segunda não deve andar muito longe dos motivos que levam um crítico a não dizer mal de um vinho.

Criticar o crítico não é tarefa fácil e embora nunca se diga, há sempre alguns medos associados. Por um lado pode ficar no ar a suspeição de que enquanto agente do meio tenho algum ressentimento para com o autor. Por outro, o receio de que passe ele a ter comigo.
Uma vez que não existe a primeira e não me incomoda a segunda, prossigo.
Como já perceberam este é um livro que de alguma forma reprovo. Mas não é pela estrutura nem pelos temas abordados. Esses, terei de ser sincero, são muito bons e foram os motivos que me levaram à compra.
Um apanhado histórico sobre a bebida, seguida pela descrição dos vários tipos de vinho, vinha, castas, regiões, vindima, vinificação, …., até ao serviço e consumo. Tudo condensado em cerca de 230 páginas. Arrumado com um apurado sentido de síntese que leva a chegar ao fim sem sentir que este ou aquele tema tenha sido insuficientemente tratados.
Então? - Perguntarão – mas o que raio é que não gostas?
O primeiro adjectivo que me ocorre para classificar este livro é preconceituoso (e único, pois sou incapaz de sair daqui!). Por um lado, entendo que um livro dirigido aos primeiros passos de (ou para servir de sebenta aos putativos cursos que o autor dê), deve ser claro, conciso e “descomplicado”. Mas afirmar certezas que alguns de nós andamos há anos a tentar desmistificar é remar para trás.
Declarações como: “Não há relação directa entre o solo e o vinho”; “… feitos para beber preferencialmente enquanto jovens [sobre os Arintos de Bucelas]”; “Douro e Alentejo lideram a qualidade …”, lançam certezas nas mentes de quem lê, principalmente se forem iniciáticos que depois dá muito mais trabalho arrancar. É, quanto a mim, um mau serviço que se presta ao vinho português.
Há mais passagens no livro que me levam à loucura, mas como podem ser arrumadas no saco das opiniões, não as apresento aqui.
Ainda assim aconselharia a leitura a quem já tenha consciência suficiente para o criticar. Nunca, e sublinho, nunca como primeira referência.
Vá-se lá entender esta cabeça!
P.S.: Outras criticas encontradas em blogs. Enófilo Militante.

20 de Janeiro de 2012

Fandango na desencuba do cabernet

Fernando Chalana, o grande Benfiquista, anda longe de se lembrar do dia em que aceitou pousar para a objectiva do Sr. João. Este, contudo, tem nesse retrato um tesouro. Ambos mais novos, franzinos, cabelo encarapinhado e farto bigode. “Digam lá que não somos iguaizinhos?” pergunta o Sr. João a cada estagiário que faz questão de levar numa visita guiada à sua caixinha de tesouros que guarda, sem grande cuidado, à entrada da adega E da Quinta da Alorna.
Figura peculiar. Não se pode de todo afirmar que é um homem do seu tempo. Parece saído das histórias que as minhas avós contavam sobre o antigamente da campina Ribatejana. Rude nas formas de  expressar e de estar,  ao mesmo tempo cuidadoso em manter postura educada à frente de estranhos. Trás consigo as marcas das escolhas que fez e dos empurrões que a vida lhe deu.
Chega cedo pela manhã no seu transporte de sempre. Uma bicicleta pasteleira preta que manobra tão bem ou melhor que eu a minha BTT. Já trás as galochas calçadas para não perder tempo em vestiários e a coisa resume-se a estacionar a bicha, passar em revista alguns itens no relicário e apresentar-se ao Mário, o Chefe dos Adegueiros, a pedir trabalho.
Foi com esta gente que dei os primeiros passos numa adega e, é a esta gente,  que devo a abordagem apaixonada à causa do vinho. Passei naquele ano histórias incríveis que, se houver engenho, aqui as irei contando. Mas sem dúvida as façanhas do Sr. João, o Chalana da Alorna, merecem abrir as hostilidades.
Amante do folclore, toca cana e dança o melhor fandango que já vi (e acreditem que um tipo nascido e criado perto da campina  viu dançar muito, mas muito fandango).
A particularidade aqui é que o vi dançar, a primeira vez, dentro de uma cuba de 30 000L durante uma desencuba de Cabernet. Não acreditam? Vejam o pequeno video que se encontra aqui a baixo e já comprovarão.
Lavagens é com ele. Imagino-o a chegar com o seu casaco de impermeável verde  a arrastar as galochas onde cabem pelo menos o dobro das pernas tal é a secura daquele corpo que ainda assim não se verga. Quem o vê andar, principalmente ao final do dia, talvez um pouco mais inebriado pela rudeza da jorna, ou não! Não dirá os movimentos de gato que aquele homem é capaz de fazer quando solicitamos: “Oh! Sr. João. Vá lá uma fandangada aqui para a menina ver como é isto de dançar no Ribatejo!”
E ora tomem lá. Era assim que saia. João que, dentro das suas galochas dava um show inesquecível.
Foi em 2004 a minha mítica vindima na Quinta da Murta. O Sr. João, dadas as contingências da vida, já não trabalha lá, mas a chiadeira da velha pasteleira ainda se faz ecoar nos meus ouvidos  cada vez que arranjo desculpa para ir cumprimentar os bons amigos que por lá fiz.
Grande Sr. João.

18 de Janeiro de 2012

EVS 2011

Sei que é um pouco tarde para fazer balanços deste evento organizado pela Revista de Vinhos. Contudo, o motivo que me leva a escrever estas linhas prende-se apenas com a referência e interpretação de algumas evidências. A constatação de que aprendi alguma coisa durante os quatro dias que o evento durou.

Os três primeiros dias foram dedicados ao público em geral e o quarto a profissionais. Muito bem. O que aconteceu?
Nos dias do público generalizado todas os stands tinham gente. Não dei volta que não encontrasse os visitantes mais ou menos distribuídos.
No último dia, posso garantir sem exagero, que parte dos produtores não teve uma visita durante os primeiros 2/3 do tempo. Reparei contudo, que a romaria aos famosos era estonteante. Vi filas e acotovelanços civilizados em boa parte destes stands, mas os outros que nos dias precedentes tinham sempre alguém, estavam às moscas.
 A primeira ideia que me ocorre, a perversa, é a de que essa gente da distribuição, das garrafeiras e da restauração só quer os vinhos fáceis de vender. Só querem os anos mais recentes para não ter de aprender a explicar os vinhos. Procuram apenas aqueles em que é o produtor que assume a fatia de leão no risco da construção de mercado. Porra! Raios partam esta gente que só quer dinheiro fácil.
Uma segunda volta no pensamento. Mas…. E os produtores, o que fazem os produtores para merecerem tal sorte? Aqui é que a porca torce o rabo. Há que dar importância ao marketing de qualidade. Não comecem a falar de dinheiro. Marketing de qualidade, no mercado português (porque é diminuto) tem mais a ver com presença, acompanhamento, relação, tratamento adequado e amizade com o consumidor/cliente do que propriamente no gasto de avultadas somas em publicidade e moças “perdidas” em stands que são um achado para as vistas. É a porra da lábia. Muitas vezes necessária numa escala bem maior que a própria excelência do produto.
Bem, não se conclui nada, ou conclui? Por um lado temos gente, vamos ser honestos, pouco ou nada informada sobre vinho que procura apenas valores seguros e lucro sem espinhas. Por outro temos produtores que deveriam passar mais tempo a visitar os seus clientes e a fortalecer laços comerciais. A saber posicionar os seus produtos e construir mensagens eficientes para os vender.
É bater punho. É bater punho, como diz o outro.

16 de Janeiro de 2012

O sistema de frio

Figura 1 – Esquema simplificado de um sistema de frio. As cores estão representadas em analogia com as do sistema circulatório. Azul para o liquido refrigerante quente e vermelho para o liquido refrigerante frio.

Lembram-se das aulas de Biologia? Lembram-se de estudar o sistema circulatório dos mamíferos. Já agora, lembram-se ainda  de como é o coração de um réptil? Bom, precisam rever isso para entender bem o que vou dizer a seguir.

Vá, vão lá ler, eu espero……


Já está? Óptimo.
Devem estar a perguntar o que tem o “cu” a ver com as calças. Precisamente isso, nada, no entanto tudo. Deixemo-nos de lérias… Vamos lá ao que interessa.
Se estão relembrados, o sistema circulatório dos mamíferos consiste de duas circulações separadas que se cruzam (sem se tocar) apenas no coração. Certo? Na pequena circulação, temos a reciclagem das hemoglobinas, as trocas gasosas, lembram-se? Na grande circulação a irrigação de todas as células do organismo. Ou seja, em subsistemas separados o sangue vai aos pulmões para trocar Dioxido de carbono por oxigénio e depois passa de novo pelo coração para ser bombeado, desta vez com mais força (ai têm a importância do miocárdio) para o resto do corpo. Na volta, passa novamente pelo coração para ser de novo bombeado para os pulmões.
Agora proponho o exercício. Substituam as artérias e veias por tubagem. Substituam capilares por mecanismos de permuta, sejam cintas refrigeradoras (figura 2) ou outro qualquer equipamento de arrefecimento. Os órgãos substituem-nos pelas cubas e demais recipientes com vinho.
Agora muita atenção. Os pulmões vão substituir por  uma máquina de frio, o chiller (um frigorifico grande), a máquina que arrefece novamente o liquido. Está? Boa! Não percam isso da memória.
Lembram-se de no princípio ter falado do coração dos repteis. Recordam-se que existem, ao contrário dos mamíferos (que têm 4), apenas 3 cavidades no coração dessas feras rastejantes? A tal questão do septo incompleto? Bom, existe, no sistema de frio um depósito, para onde é bombeado todo o liquido de ambas as circulações. Este depósito está semi dividido por uma placa que só não o divide em dois para evitar falta de nível num dos lados se houver algum problema. Existe para manter separadas, dentro dos possíveis as temperaturas. Tendo isto em conta, substituam agora, no esquema, o coração por este depósito e pronto têm um esquema mental de um sistema de frio completo. Não conseguem imaginar tanta coisa junta? Foi por isso que fiz um desenho.
Importa ainda referir que este sistema é alimentado por uma solução, normalmente composta de água e álcool a fim de, não só permitir temperaturas mais baixas que 0ºC sem congelação, como permitir um mais eficiente abaixamento térmico do mosto ou vinho. O circuito do calor dá-se da seguinte forma: O líquido passa na cuba e retira calor, entra no depósito no lado em que é bombeado para o chiller. Passa depois neste aparelho para libertar calor. Volta de novo ao tanque, desta feita do lado em que será bombeado novamente para as cubas.
E pronto, aí têm, com ajuda das imagens, acho que entenderão bem.
É por isso que dizem alguns que o sistema de frio é o coração da adega? Não, penso que não. Penso que é somente pela sua importância.
O quê? Ainda não perceberam? Não faz mal, venham ter comigo à Quinta da Murta que eu mostro e explico tudo no local!

Figura 2 – “Cintas” e mecanismo de permuta de calor em cubas com controlo térmico.

13 de Janeiro de 2012

Como se faz um grande vinho branco?


Não digo! Quem quiser saber tem de ensaiar!
Contudo, considero essências quatro aspectos (depois da uva) para a realização de vinho branco de elevada qualidade. Não hierarquizo por importância pois são, quanto a mim, pilares sem os quais dificilmente conseguiremos o máximo dos máximos.
Primeiro, cubas de aço inoxidável (vulgarmente apelidado de Inox). A sua utilização está associada à reduzida porosidade que permite uma higienização mais eficaz (termo que conjuga duas operações: Limpeza - eliminação de restos de matéria e outras partículas que ficam sobre as superfícies e Desinfecção - destruição ou remoção dos microrganismos.).
Em segundo lugar, elejo o sistema de frio. Uma adega desta natureza tem forçosamente que possuir um. É vulgarmente apelidado do coração da adega tal a sua importância. Utiliza-se desde o arrefecimento das massas (forma de designar as uvas desengaçadas) à estabilização tartárica. Mediante o trabalho pretendido é ainda utilizado no arrefecimento de mostos para clarificação, mas, seguramente, onde um enólogo não prescinde dele é durante a fermentação. Um mosto sem frio leva menos de uma semana a fermentar completamente. Com recurso a este demora entre 3 a 5 semanas. Falarei melhor disto quando tocar na fermentação no C.E.E., mas fiquem com esta comparação: fermentar a temperaturas mais baixas está para a vinificação de brancos como a cozedura em lume brando para um cozinhado. Quanto mais lenta a cozedura mais apurado fica o prato certo? Não é literalmente a mesma coisa, até porque bioquimicamente os motivos são outros, mas ficam com uma ideia aproximada.
De seguida elejo os pequenos volumes de fermentação. Imaginem duas cubas, uma de 5000 L e o outra de 50 000L. Se necessito baixar 2 graus à dita temperatura, em qual dos fermentadores acham que vou chegar lá primeiro? Em qual acham que o controlo é mais eficaz? É preciso dizer mais?
Dá muito mais trabalho, isso dá! Controlar 10 cubas de 5000 em vez de uma de 50000, mas quem puder… não pense duas vezes.
E pronto. Ai têm tudo o que precisam saber para fazer grandes vinhos brancos!
O quê? São quatro critérios?
Pois são! Alguém quer tentar adivinhar qual é o quarto?
Escuto!


Proximo Post: O sistema de frio.

11 de Janeiro de 2012

Vinhos Brancos Maduros Vs Vinhos Brancos Jovens


Quem me conhece sabe que me bato pelo consumo dos vinhos brancos maduros. Não é que não goste deles acabados de sair. Gosto e muito, mas retiro um prazer especial dos vinhos com um pouco mais de idade. Ok! Ok! São para consumir em alturas diferentes. Sei disso!
Regra geral, os vinhos que evoluem positivamente, só com a idade mostram a verdadeira essência. Só passado o período do deslumbramento tropical, floral e frutal (sei que a palavra não existe. Sou burro, mas não sou tanto!),…, é que vemos revelada toda a sua magia.
A esta altura da argumentação, já me começa a enrolar a língua, engadanham os dedos, entorpece o cérebro. Os argumentos não querem sair e os impropérios que passo a cuspir não são suficientes para me satisfazer na explicação.
Aqui há dias, tentava eu mais uma vez dar luz aos argumentos quando por fim a vi (por acaso foi no dia de um jogo do SLB, mas esta luz nada tem a ver com a da catedral). Epifania por fim. Ainda que altamente machista (as meninas que me perdoem) penso que todos entenderão visto tratarem-se de estereótipos comuns na sociedade.
Se comparar os vinhos brancos a perfis femininos, vejo no novo a “gaja boa”. Carinha laroca e um corpo deslumbrante (com ou sem plástica) que faz palpitar todo o sistema hormonal de um homem. Em maior ou menor escala há o apelo primário à satisfação da carne e pouco mais.
Já um vinho com mais idade, com alguma evolução, comparo à mulher madura, elegante, não necessariamente bonita no sentido “barbie” mas, charmosa e inteligente, profunda e com mais camadas para ir descobrindo. Apelo emocional em detrimento do hormonal.
Não tem mal preferir um ao outro. Ambos têm atributos distintos e adaptáveis ao momento. Já fico contente se passarem a considerar os dois como propostas válidas e abandonarem essa ideia ainda reinante de que branco que não seja mamado em novo mais vale ser gasto nos tachos. Este tipo de vinhos, feitos com tecnologia apropriada, tem todas as condições para durar bons anos. Quando feitos propositadamente para o efeito… muitos anos.
A vantagem nos vinhos é que a sociedade não torce o nariz se andármos a bicar ora na gaja boa, ora na madura.
Cá por casa andamos nos brancos com mais idade, com alguma evolução. Procuramos a mineralidade, o salgadinho e a complexidade harmoniosa. Procurem, procurem voçês também que vão encontrar agradáveis surpresas.
Não tenham medo de experimentar, não tenham medo de errar, não se deixem formatar.
Peço-vos.

8 de Janeiro de 2012

TWA Espumantiza Portugal.

Talvez seja uma imbecilidade minha. Talvez seja uma casmurrice. No entanto, quanto mais estudo sobre espumantes, quanto mais vinhos portugueses provo, mais certezas tenho que este [vinhos espumantes] é um filão por explorar em Portugal. Há muito a fazer e a melhorar. Principalmente por pequenos e médios produtores. Explico já porquê.

Os grandes produtores (se é que à escala mundial alguém em Portugal se pode chamar grande) terão mais que fazer com certeza do que se preocupar em fazer um tipo de vinho que tem necessidades especiais no manuseamento pré mercado, que tem necessidades de know-how específicas e ainda que normalmente associa um tempo de imobilizado bem maior do que o necessário à produção de um milhão de garrafas de custo inferior ou igual a 1€. Não interessa numa economia de escala e onde se tem de dar contas de liquidez ao conselho de administração com frequência.
Por outro lado, o vinho espumante continua a ter a conotação de topo de gama, de vinho diferenciado, cuidado, especial. É, sem duvida o rendilhado da gama de produtos e quem, se não um produtor de “piquena” ou média dimensão para melhor usufruir desta qualidade?
Ora, num plano mundial, somos um pequeno produtor e embora algumas vozes experientes, que muito respeito, afirmarem que não faz sentido pensar nesta bebida como elemento válido na exportação, eu acredito que se for pensada a longo prazo, faz sentido sim, quanto mais não seja por entender que temos muito boas condições para o fazer e porque a concorrência mundial, embora muito forte, é ainda seguramente mais escassa do que no capítulo vinhos tintos e brancos. Ou não é? (vamos ver como cresce o Brasil…. no entanto….).
Decidi, por isso, estudar o potencial de espumantização dos vinhos portugueses. Criei um pequeno serviço de ensaio de tiragem (ou tomada de mousse se entenderem melhor chamar-lhe assim) explicado na nova página intitulada, precisamente TWA SERVIÇOS.
Para o produtor, este serviço tem a vantagem de, com um risco nulo, produzir dados que o ajudem a decidir na aptidão dos seus nectares para a realização destes vinhos. Para mim, fundamentalmente o teste e estudo dos potenciais espumantes portugueses.
Esta é a primeira fase de um projecto maior. Que a seu tempo darei conta.
Vamos lá testar isso?





5 de Janeiro de 2012

Um livro de memórias já?

Não, é só um rascunho, para não me esquecer!
Um enólogo, mesmo que seja tão tolinho quanto eu, guarda sempre uns episódios que o marcam para a vida. Felizmente tenho o dom de, com o tempo me lembrar preferencialmente daqueles que me são queridos, que me fizeram crescer ou que me marcaram por algum ensinamento especial. Aos outros, simplesmente não arranjo nenhuma forma de terem graça e por isso recalco. Um dia, quando me deitar no divã é que vão ser elas!
Estou convencido que um espaço como este só tem a ganhar com o relato destas histórias que, em muitos pontos carecem de ser um pouco estórias também, não fosse a promessa que fiz, no primeiro dia deste blogge, de romancear sempre que o momento o pedisse.
Sou pródigo a protagonizar situações caricatas. Sou exímio em estar no local errado à hora certa. Encaro tudo isto como um filme cómico do qual é preciso desfrutar. O vinho só por si já é um estimulante do riso, faze-lo é, muitas vezes de ir às lágrimas.
Por isso decidi, depois de muito conjecturar no assunto, depois de vários pedidos (ok! ok! O da minha mãe não conta!), criar uma nova etiqueta á qual chamarei simplesmente Memória. Aqui relatarei estes episódios e prometo não o fazer de forma ordenada. Contudo, sempre que me lembrar de quando aconteceram, porei o momento. Espero que gostem!
Agora que já salivaram, vão para dentro que só começo a postar quando me apetecer!
Deixo as possiveis capas e titulos do livro. Façam sugestões para a terceira. Escolham a pior!



2 de Janeiro de 2012

O Porto e o Douro

By: Richard Mayson

A compra deste exemplar foi um daqueles momentos em que é o livro quem nos escolhe e não  nós que o procuramos.
Passeava com o meu filho no supermercado, esse que nos chama a uma visita, enquanto a Sara pagava umas compras. Por insistência dele fui dar uma vista de olhos a uma venda de livros que por ali está de quando em vez. O sacana do rapaz já lá tinha andado a catrapiscar os olhos a uns títulos e, não tive como me afastar. Aproximei-me somente com a vista, pois a mente, vagueava num qualquer projecto de 2012.
Eis que me chama a atenção a capa deste livro. Fiquei primeiramente com a sensação de o já ter visto. Talvez não. Passei os olhos pelos demais, mas o malandro continuava a chamar-me. Uma abordagem mais atenta fez-me entender que estava ali uma excelente forma de começar a saber alguma coisa, de jeito, sobre os vinhos do douro, e em especial sobre os Porto.
E pronto, comprou-se o livro para mim e um outro para o Manel. O dele tinha uns puzzles ( e tinha é o tempo verbal mais que correcto) com vários bichos da savana que ele logo se encarregou de reorganizar em quimeras improváveis, mal chegou a casa, enquanto acenava com a cabeça e me perguntava: “Assim pai! Sim? Sim?”
Grande M&M! Vai ser um  cientista é o que é!
Depois de o ler posso garantir-vos que confirmou o que se esperava. Um livro com a dupla função de leitura e consulta. Boa malha!
Tenho apenas a recomendar ao autor que já se justifica uma nova edição com algumas revisões e actualizações (tal como na nova versão original). Parecendo que não, em 10 anos houve muita convulsão. Oh! Richard, actualiza lá isso!
E pronto, um livro obrigatório em qualquer estante enófilica.
Querem que vos diga mais o quê? É comprar e ler, vá!


29 de Dezembro de 2011

Votos 2012

A altura do ano é óptima para olhar para trás, analisar o que correu melhor e pior, retirar lições e planear o futuro. Gosto particularmente deste exercício.
Daqui vejo erros cometidos, experiências falhadas e algumas intenções fracassadas. Vejo contudo, bastante crescimento, algum amadurecimento e um grande reforço na certeza do caminho que escolhi.
Eu sei, eu sei, devia dedicar-me mais a escrever sobre enologia. Deveria deixar-me estar quieto e perder menos tempo com opiniões, constatações, reflexões, afirmações, posições, chatarrões, parvalhões, paspalhões e tantas, mas tantas coisas acabadas em ões que vos põem os cabelos em pé. É verdade! Mas sou assim, pouco há a fazer. Quero mudar o mundo, mas não consigo fazê-lo sozinho. Conto com a vossa ajuda!

Planos para 2012?
Sim existem! Sim, estão escritos para não me esquecer! Não! Não vou dizer nada sobre isso! Não! Não insistam! É segredo! Eh! Eh! Coragem amigos, um dia de cada vez! Digo apenas que é ambicioso (para a dimensão, claro!) e que pretende levar o TWA para o terreno (o que quer que isto queira dizer). Acções concretas. Estou motivado.
Tenho ainda a convicção de que 2012 será um ano marcante na w-enofilía (Eu sei que é i-enofilía, quanto muito e-enofilía!) portuguesa. Vejo muita vontade por ai, vejo ideias a passar de mão em mão. Vejo partilha e interajuda. Vejo pessoas felizes no que estão a fazer e muita vontade de arriscar. Vejo pouco medo do risco. Espero que 2012 seja verdadeiramente um ano de mudanças positivas, de projectos concretizados, de movimentação.
Que em 2012 o sector consiga modernizar-se nas consciências, mais do que nas infrastruturas e maquinaria. Que consigamos, juntos, encontrar as soluções que necessitamos para dar a volta à situação. Para contribuirmos na reabilitação (ou construção) do pais vitivinícola. Que todos queiramos fazer parte da solução, não do problema.
Desejo para todos o mesmo que desejo para para mim e para as pessoas que amo. Saúde e oportunidades. Que 2012 nos traga, apenas o que merecermos.
Obrigado por estarem aí!

Feliz 2012.

26 de Dezembro de 2011

Barca Velha - Histórias de um Vinho

Até hoje, na minha história “enofílica” poucos livros me deram o prazer deste. Pequeno, escorreito, jornalístico, mas ao mesmo tempo envolvente, apaixonante e sentimental.
Li-o depressa demais, durante alguns serões de primavera. Emigrava para o quintal, levava um copo com abafado da Quinta da Alorna e, nos ouvidos alternavam os álbums Blue Bell Knoll dos Cocteau Twins e Automati writing de Ataxia.
O álcool e a música serviam de adjuvantes aos relatos do livro. Proporcionou-me várias saídas higiénicas em que a mente viajou no tempo e calcorreei os difíceis caminhos do Douro, lado a lado com Fernando Nicolau de Almeida.
E já que falo nisso, lembrei-me que tenho de o pedir a um amigo a quem o emprestei e não mo devolveu – e se eu gosto que não me devolvam livros, filmes e musica. Até comprava outro e lhe oferecia aquele, não fosse o facto de a edição estar esgotada há anos na minha loja habitual.
Uma boa malha que vale bem a pena o escarafuncho dos escaparates dos livreiros.

22 de Dezembro de 2011

Prova dos 3 – Parte II

Tal como referido no post anterior, lançou-se o desafio aos provadores para avaliarem um mesmo vinho segundo 3 metodologias distintas. Importa reforçar que se está a tentar testar algo e não a provar nada. Há muito que estou convencido que uma apreciação baseada na recomendação ou na relação custo/benefício é de muito mais fácil entendimento para o comum consumidor (é por isso que acho a ideia do rating no site Adegga, simplesmente genial). Acredito, ao contrário do que se diz, que esse consumidor quer recomendações (todos gostamos delas). Não quer é saber de framboesas, de confitados ou de balsâmicos, muito menos de enquadramentos de notas. Quer uma recomendação simples, directa e legível. Ponto.
Bom, regressemos ao ensaio. Pediu-se que pontuassem cada vinho nas 3 escalas. Na tabela 1 encontram-se os resultados.No campo Nota encontram-se os valores convertidos directamente da escala pessoal. Não foram tidas em conta as modificações intrínsecas a cada provador. Calculou-se para uma equivalência entre 1-10, para poder comparar com as outras escalas. A título de exemplo: um vinho com uma avaliação de 14 valores em 20 possíveis, passa a ter 7 na escala de satisfação que tem 10 como máximo. A tabela contém, para cada amostra e para cada escala, a média das notas dos provadores, tendo em conta a norma do OIV (penso não haver engano na origem) em que se retira a nota mais alta e a mais baixa para cada vinho.  No decorrer da prova, confirmou-se depois no tratamento dos dados, que não há coerência quando se rejeita um vinho. Para os provadores presentes, dar 5 ou 8 a um vinho que rejeitam é a mesma coisa. Retiraram-se, pelo motivo descrito, do tratamento de dados, os vinhos que obtiveram pontuações negativas.
Compararam-se as 3 escalas calculando o desvio Padrão (DesvP) para cada uma das amostras a fim de perceber como variam entre si. Depois calcularam-se as médias de valores de cada método de avaliação para ter uma forma de comparação mais generalista. Convém, no entanto, referir que todos os valores estão arredondados, sem casas decimais.


Tabela 1: Comparação entre os valores médios adquiridos nas diferentes escalas para cada amostra de vinho. Calculo realizado após retirada da nota mais alta e da mais baixa para cada vinho. Nota- Avaliação segundo os padrões e escalas individuais convertidas à escala de 10. RQP – Relação qualidade/preço. Relação na escala de 10 entre o preço e a qualidade do vinho. ERA – Escala de Recomendação a um amigo. Na escala de 10 quanto vale a recomendação do vinho provado?



Conclusões:
A comparação dos resultados (vinho a vinho) mostra que houve pouca variação considerável entre as diferentes escalas utilizadas. Há contudo, no calculo das médias uma diferença de 2 valores entre a escala comummente utilizada por cada um (Nota) – 7 - e as escalas introduzidas (RQP e ERA) - 5. Considero que esta diferença merece atenção redobrada em testes futuros, pois pode ter várias interpretações. Por agora considerá-la-ei menor. Fruto de uma inadaptação dos provadores a escalas mais reduzidas. Da má interiorização dos conceitos das “novas” escalas e da necessidade de refinar a forma como os dados são criados.
Contudo, inclino-me mais para a hipótese de que os provadores não tenham conseguido apreciar o mesmo vinho recorrendo a diferentes critérios, limitando-se a inconscientemente reproduzir a conversão da nota para uma escala diferente.
Os resultados não são conclusivos. São escassos e contemplam poucas variáveis. No entanto deixam-me a vontade de continuar a testar a hipótese da escala de recomendação, seja com provadores/avaliadores, seja com consumidores.
Se alguém quiser os dados originais para refazer estes cálculos, terei todo o gosto em enviar-lhe o ficheiro.

Fecho o assunto, por agora, com um agradecimento especial ao Pingus Vínicos, que teve a amabilidade de ler os textos dos 2 post à procura de incongruências matemáticas.








19 de Dezembro de 2011

Prova dos 3 – Parte I

5 de Outubro. Um punhado de internautas da comunidade TWA no facebook decidiram juntar-se numa prova cega (claro!). O mote foi resultado  das muitas discussões que por lá evoluem.  Levámos 3 vinhos cada, com um preço de prateleira até 3€. Simples. A ideia foi perceber se, nesta faixa de preço a qualidade abunda.
Não irei gastar tempo com as marcas escolhidas, outros fizeram-no bem, (Diogo Rodrigues, Carlos Janeiro, Nuno Ciríaco). Sobre o que foi provado, permito-me apenas dizer que, as conclusões, se as houve não podem ser transcritas para a generalidade. O lote de vinhos não foi, nem de perto nem de longe representativo. Desta forma, os critérios individuais de escolha tiveram nos resultados um peso absolutamente decisivo.
Tive a cargo, somente, a organização logística da prova. O João Pedro Carvalho ficou com a tarefa das “inscrições” e garantia de que não haveria vinhos repetidos.
Decidi testar algumas ideias que constantemente assolam a minha (de)mente  e como tal preparei uma folha de prova diferente daquela que normalmente se usa. É público que tenho algumas, para não dizer imensas, dúvidas quanto à aplicabilidade das mais diversas escalas adaptadas, que grassam por todos os lados. Algumas delas rebuscadas, despidas de uma linguagem acessível. Adiante.
Sabia, de antemão, que os participantes dominavam com alguma consistência a técnica da prova. , pelo que um campo para uma nota final ao vinho na escala que habitualmente usam seria mais do que suficiente.
Tentou-se inovar com a inclusão de duas  escalas alternativas, mais simples e com um intervalo de valores de 1-10. A primeira, mais fácil de entender, seria uma simples relação qualidade preço (RQP). A segunda apelidou-se de Escala de Recomendação a Amigo (ERA), baseada num conceito retirado do livro Top Service – a escolha é sua de Carla Carvalho Dias. (Edição de Nov. 2010).Cito:
“Recentemente, Fred Reichheld, autor do livro The Ultimate Questinon, ilustra bem o poder da recomendação. Na verdade, todo o estudo e livro se situam em torno da questão: Numa escala de 0-10, qual a probabilidade de recomendar a nossa empresa/serviço a um amigo?”
Corto já, as pernas a todos aqueles que gostam de matar as discussões sobre assuntos potencialmente relevantes (pelo menos para quem os escreve) com patetices do género: “Ah! E tal, escala de probabilidade? O que é isso? Probabilidade 1 é o acontecimento certo, então e 2, o que é?”. Não faltarão por ai matemáticos brilhantes, mas penso que com boa vontade toda a gente entende a razão destas palavras. Continuemos!

Apesar de não ter passado os olhos pelas palavras de Fred Reichheld a ideia agrada-me. Uma escala com intervalo mais reduzido, que não complica e que apela para a manifestação de satisfação. Simples, portanto. Pensemos no consumidor comum, esse que não quer saber dos guias nem das notas de prova. Se tiver um sistema de avaliação que perceba sem pestanejar, poderá ou não usa-lo? Poderá ou não passar a consultar mais essas recomendações? São este tipo de dúvidas que assolam a carola!
Os resultados (com numeros) serão indicados no próximo post (5ª Feira) . No entanto, posso avançar que vale a pena continuar a testar esta hipótese. Existe a forte convicção pessoal que o facto de a escala ser mais apertada não muda em nada a apreciação do vinho, mantendo-se a coerência. Se proporcionar maior confiança, simplicidade e compreensão ao consumidor, vale a pena pensar nela como alternativa. Em 2012 testar-se-á esta hipótese junto de quem compra vinho.

P.S.: A prova foi realizada na Quinta das Carrafouchas e o almoço realizou-se no Solar dos Pintor, ambos agentes activos da comunidade citada no inicio do post.

15 de Dezembro de 2011

Que vinho para as Pringles?


Durante demasiado tempo, vivi com a forte convicção de que o pendão gastronómico do vinho era, por si, um elemento valorizador do produto. De uma forma muito empírica, pouco reflectida, achava que para apresentar um vinho, uma boa maneira era casa-lo com pratos elegantes, sofisticados, glamurosos… enfim, já perceberam o filme.
Convidar um chefe da moda e pô-lo a cozinhar aquelas peculiaridades gastronómicas para harmonizar assim e assado cada elemento descritor do nectar é, confesso, um exercício que adoro. Mas valoriza assim tanto o vinho? Fá-lo tornar mais apetecível? Dá-lhe uma imagem democrática? Sejamos honestos, na esmagadora maioria do vinho disponível para consumo, nem por sombras! Estou convencido de que apresentar um vinho com um prato desse nível de sofisticação enviará ao consumidor o falso sinal de que só tirará o devido partido do consumo se replicar a fórmula. Não tentem rebater, a teoria da culpa, no marketing, não é minha, apenas a utilizo aqui.
Ok! OK! Maço-vos com este parágrafo para salvaguardar alguns (quantos, 5%?) que se encontram fora da abrangência deste post. As excepções. As honrosas excepções. Sempre as excepções… E ainda… (lembram-se do concurso 1, 2, 3?) aqueles vinhos que têm a versatilidade de se adequar aos dois tipos de consumo. Satisfeitos? Prossigamos então!
Por outro lado, se o grosso do consumo se prende nos vinhos de gama média e baixa, porque não fazer harmonizações sim, mas com pratos do dia-a-dia. Mesmo comida congelada ou take away do supermercado. Porque não? Quantos de vós cozinham todos os dias? Quantos de vós não consomem comida rápida? Quantos de vós já viram sugerido um vinho para a pizza congelada ou para o bacalhau com natas do pingo doce (publicidade viram)? Quantos de vocês já viram alguma vez uma tentativa de harmonizar vinho com pringles (novamente, é só empochar.)? Amendoim salgado? Pevides? Tremoço? Tosta mista? Caracóis?...
Então, porque não valorizar estes momentos através do vinho? Sem culpa de estar a abrir uma boa garrafa para acompanhar uma comida menos capaz. Lembram-se do amigo Miles no filme Sideways, de como ele decidiu beber “Aquela garrafa”? Aposto em como comemos mais vezes disso que foie gras, perdiz confitada, cogumelos recheados com pó de ostra caramelizada, rabinhos de beterraba com alcachofra reduzida em banho maria com molho de aipo cortado pelos lombos,… e mais essas coisas de difícil pronuncia.
È o momento que pede o vinho ou é o vinho que transforma o momento?
Pensem nisso!

P.S.: e que bem que, nalguns casos, este tipo de harmonização casa com o conceito do vinho a copo.





12 de Dezembro de 2011

Sobre os Espumantes Portugueses – Parte II

Depois do enorme sucesso que foi a discussão da primeira parte deste conjunto de post (em principio serão 3) sobre a produção e comercialização de espumantes Portugueses, cabe-me continuar, desta vez tendo por base uma ideia que já há muito me anda a dançar na cabeça. Falarei dela mais à frente.
Para (re)começar, perguntei se existem diferenças entre os espumantes Portugueses e os demais (franceses e Espanhóis, sobretudo) que possam ser utilizadas como elementos diferenciadores. Esta questão pretendia encontrar entre as respostas aquilo que no marketing se apelida de motivo de compra. As respostas foram maioritariamente para as castas, climas e localização geográfica. Já Hélder Cunha refere que os espumantes portugueses são tendencialmente pesados e frutados e vê isso como um aspecto negativo. Será? Eu percebo, é uma questão de comparação com Champagne. Contudo, numa resposta mais à frente Luís Pato refere a importância de satisfazer o mercado. Bom, se o mercado prefere este tipo de espumantes, está-se ou não no caminho certo? È tema que merece reflexão. Contudo, partilho da visão do Hélder neste ponto, tão-somente porque entendo um espumante como um vinho de tempo, coisa que um vinho frutado dificilmente será. Tenho neste assunto uma teoria antiga que, logo que tenha um pouco mais de tempo porei em teste. Consiste na certeza de que, se for para um ponto de venda, seja supermercado seja garrafeira  e fizer uma prova cega de espumantes PT contra champagnes, ganharão, sem espinhas os primeiros, precisamente por terem essa característica mais jovial, mais fácil de entender que é a fruta efusiva e o estágio curto. Essencialmente pela falta de maturidade de consumo que tem o Português (minha opinião, claro!).Rui Falcão, por sua vez é taxativo em afirmar que não encontra nenhum denominador comum que identifique os espumantes PT. Percebo. No sentido identidade nacional. Concordo.
O que falta aos espumantes portugueses para se imporem nos mercados internacionais? É aqui que Luís Pato aponta a necessidade de  adaptação ao gosto do consumidor. Portugal é um país pequeno, adaptar a produção ao gosto do consumidor, parece-me uma medida perigosa. Principalmente porque a maior parte dos produtores o costuma fazer de forma leviana. Sem estudos concretos ou algum trabalho menos empírico. Quando temos em conta o empresário português e estamos a falar de espumantes, a adaptação ao gosto pode ser algo desastroso.  Contudo, há adaptações que podem e devem ser feitas, vontades de consumo que devem ser levadas em conta. Mas quem me conhece sabe que ainda tenho a mania que devo fazer o vinho que melhor falar da vinha e das gentes que o fazem e o nosso ónus deve estar todo do lado de formar os consumidores para o consumo destas diferenças, dos motivos de compra de cada vinho em particular. Há forma de casar estas duas vontades? Isso é que era!  Os restantes inquiridos referem qualidade, originalidade, abordagem profissional mas essencialmente a necessidade de uma marca Portugal. Eu acrescentaria apenas a maturação de um espírito de comunidade.
A ideia que falei no inicio deste longo e pesado post é a de que o país teria a ganhar com a criação de uma designação comum a todos os espumantes de qualidade superior que se fizessem em Portugal um pouco à imagem do CAVA. É obvio que entendo que apenas a criação de um nome com um logótipo bonito e uma assinatura catita não serve de nada. Penso que esta designação deveria ser muito bem estuda e constituída (tenho algumas ideias, mas não são tema para este post) de forma a minimizar interferências de interesses individualizados.
Todos os inquiridos se mostraram favoráveis, com as ressalvas devidas, o que me dá alguma esperança de que um dia isso possa vir a acontecer.
Pergunto ainda se entendem que esta designação deve ser gerida por uma associação interprofissional e a resposta é unânime, sim. Luís Pato vai mais longe, afirma que deverá, à imagem de CAVA em Espanha ultrapassar toda a dimensão empresarial e contribuir para a identidade do país. É este tipo de abordagem que penso faltar a grande parte dos produtores Portugueses, a de que somos um país e que, juntos conseguimos tudo, sozinhos até podemos estragar o que temos.
Termino fazendo uso da resposta do Frederico:
Criação de uma designação comum… : “Sim, grande ideia. Nomes?”
Alguém quer ajudar a arranjar um nome fixe?

8 de Dezembro de 2011

Guía del Turismo del Vino en España





 
Comprei este guia numas férias em Marbella, se não me engano. Como vingança daquela viagem interminável, não olhei a meios e dei sem hesitar os 24€ que me pediu a menina da Fnac – Aborreceu-me o facto de não me aceitarem o cartão de pontos. Ora bolas!
Achei a ideia genial, de tão simples que é. Trata-se de um guia, como qualquer outro de viagens, muito ao género dos que uso da American Express. Este tem a particularidade de ser inteiramente dedicado à temática vínica.
Tal como poderão ver nas imagens do índice, está, quanto a mim muito bem elaborado. De uma forma muito inteligente e completa. Não contentes com isso ainda nos oferecem em acoplado um guia de hotéis do vinho! pelos vistos, se está nas bancas a edição 2012, é porque tem tido algum sucesso, pelo menos.
Penso que algo deste género feito sobre Portugal e os vinhos Portugueses seria fantástico. Para além do efeito “simples” de guia, – se é que um calhamaço com 800 páginas pode ser apelidado de simples - pode também ser usado como um precioso elemento de estudo dos vinhos de um pais, já que são relatadas as histórias das D.O. e pormenores sobre os produtores e marcas que aqui estão representadas.
Fico com a impressão de que é um trabalho resultante do esforço conjunto e não de uma deliberação de organismo público (mas impressão não pressupõe certeza!).
Um bom exemplo que os produtores Portugueses e as instituições interprofissionais deveriam copiar.
E pronto! O que podemos pedir mais? Que nos paguem as viagens não?
Essa é boa!


5 de Dezembro de 2011

"Deliciosamente" iludido por mim!

Para que os “amigos” não se sintam mal por causa disto. Vou contar uma estória que se passou comigo e um outro amigo (este sem aspas) que só não menciono por não saber se lhe interessa ver relatada a sua participação no caso. Chamar-lhe-ei W.
Numa feira onde apresentava a Quinta da Murta, fiz aquilo que normalmente todos fazemos, dei uma volta a provar outros vinhos – não foi efectivamente uma volta, foram voltinhas que o stand não pode ficar vazio por muito tempo. Tal como para os consumidores também são óptimos momentos para nós,  profissionais da área, tanto pela prova como pela conversa. Pelo alargar da rede de contactos e pela troca de experiências.
Numa dessas voltas acompanhava-me o supramencionado W. Passámos por um stand onde atendia um senhor de ar desconfiado. Nunca tinha visto aquele produtor por ali e o meu amigo, muito mais atento e conhecedor destas coisas da enofilia também não o conhecia. Parámos. Garanto que o senhor (Deus queira que ele nunca leia isto!) tinha ar de duende ou coisa que o valha, por momentos imaginei-o vestido de ajudante de Pai Natal, que é, no meu imaginário, como se vestem os duendes. Arriscámos a conversa. Em menos de um minuto a aura mística do senhor revelou alguém afável, simpático qb e, pouco mentiroso acerca dos seus produtos.
Provamos os tintos. Não me lembro ao sabiam, sinceramente! O que quererá dizer que eram normais, sendo que no normal arrumo todos os que nem são excelentes nem são zurrapas. Eram normais. Ponto.
O que verdadeiramente nos impressionou foi o branco. Logo no nariz aquilo dava umas sensações estranhas. Para mim, cheirava a sabão, borracha e muitas coisas artificiais. Lembrava literalmente  a antiga mercearia do Sr. Manuel Gomes, local onde os meus pais se abasteciam de tudo nos tempos em que eu podia brincar na rua até ao acender da iluminação pública. Trocamos olhares e vi o W a fazer o mesmo que eu, a conter o rizo. Que coisa estranha. Na boca, novo impacto. Sentia-se muita coisa do nariz. Água com sabão ou lá o que era. Fiz a pergunta mental: “ Será que este gajo se enganou e engarrafou a água de lavar o chão?”.
O Sr. observava-nos com ar inquisidor. Esperava pela apreciação. Eu lembrei-me que tinha ao pescoço o crachá da feira. Bolas! Não poderia fugir dali, o homem procurar-me-ia e eu não teria como me esconder dele o resto dos dias.
Comecei eu. Disse-lhe que o vinho tinha, realmente uns aromas estranhos, algo que não estava acostumado a sentir. Pensei que assim deixava a coisa em águas de bacalhau e pronto, poderia seguir caminho. W é um tipo muito mais inteligente que eu e sabe calar-se ou apenas acenar que sim ou que não quando o momento assim o pede. Penso que se limitou a corroborar o que eu havia dito, sem grande ênfase.
O senhor achou que deveria explicar-nos que aquela era a primeira colheita do vinho, muito diferente das seguintes e que tinha sido feito da forma mais tradicional que conhecia. Meia curtimenta com engaço em lagar de cimento e depois escorrido para a cuba onde acabara de fermentar.
Passei, imediatamente, a olhar para aquilo com outra curiosidade. Estava ali um ensaio, um remake da tradição. Seria interessante perceber como iria aquilo evoluir. Os meus colegas enólogos devem estar todos, neste momento a acenar com a cabeça como que a dizer: “Confirma-se, o Hugo Mendes é mesmo uma nulidade. E ainda achava que o vinho tinha condições de evoluir. Pois. Pois. Por este andar, estás a lavar chão (com esse vinho) não tarda” - para que conste, já estou…; P
A verdade é que embarco nalgumas estórias pelo prazer de as ter ouvido, pelo gosto da desconstrução, pelo prazer do teste ao diferente. Até, da confirmação do óbvio, porque não?
Sugestionado então pela história, pelo meu súbito interesse ou por ambas, compramos duas garrafas cada um para ver como saberia o vinho à mesa e depois de uma dormida em cave - nada de pesado, 2,5€/garrafa.
Abri uma à pouco mais de um mês e posso garantir-vos que o vinho não evoluiu nada (penso que a colheita é 2008). Continua a saber-me a sabão com fartura. Não pude deixar de me rir à gargalhada (fiz um LOL) ao manda-la pelo cano. primeiro, por ter sido tão estúpido. Segundo, porque imagino o meu amigo W a abrir a sua e a dizer: “Como fui capaz de me deixar ir na conversa daquele tolo! Irra!”
Vale o consolo de ter  contribuido para a erradicação daquele "problema". E agora que falo nisso, reparo o meu amigo nunca mais me falou no vinho. Penso até que tenta evitar-me. Deve estar pouco lixado, deve!
Eh! Eh! Eh!